domingo, 30 de novembro de 2014

No caminho...


Após consulta médica, sentada no ônibus a caminho de casa, vi uma cena que me chamou atenção; três crianças sobem no ônibus , suas idades são aproximadamente de cinco, sete e doze  anos. O mais velho conduzia os menores, todos estavam com roupas escolares. Até aí, mas uma cena cotidiana (mas não natural) do dia a dia.

Continuo a observar a cena...  O menino de sete anos senta num banco do ônibus e a menor de cinco anos em outro banco. Deduzi que ambos queriam ficar na janela .

O irmão mais velho fica sem saber com quem sentar, insisti que a menina fique com o outro irmão mas não conseguindo convencê-la , senta-se com ela. A menina, na inocência de sua idade, coloca suas mãozinhas na base da janela e brinca de olhar para fora do ônibus.
O irmão mais velho, no instinto do cuidado, pede para que ela se afaste e tire as mãos da janela. Prudente este menino, pensei.

O fato é que com a birra da irmã e sua teimosia em não se afastar da janela, o menino opta por fechá-la e nesse movimento machuca os  dedos de sua irmãzinha. A menina abre um berreiro e chora copiosamente. Um choro doido, sentido. O irmão tenta interpelar, acariciar as mãos da irmã, que grita mais ainda.

Ele fala baixinho; - Foi sem querer. E ela apenas chora.   

Os demais passageiros do ônibus começam a olhar a situação e percebo que alguns começam a lançar olhares de raiva sobre aquele irmão que feriu aquela pequena criança. O menino se recolhe e pede para a irmã não chorar mais porque “vai passar”. A irmã chora e as lágrimas rolam pelo rosto.

Uma passageira, sentada no banco de trás, abre com rispidez a janela do banco onde estava às crianças e fita o garoto mais velho com recriminação, enquanto que um senhor de pé fala ser um absurdo aquele garoto ter feito a irmã chorar. O menino apenas olha, eu apenas observo e a única coisa que penso é – “Se alguém for brigar com este garoto eu o defendo.”

Sei que esta minha atitude foi nada, pois deveria tê-lo defendido desde o primeiro momento ou tentado lhe ajudar. Meu momento atual não permitiu. Não sou mais o que sou.

O fato é que uma senhora idosa sentada a frente do banco das crianças, vira-se e pergunta para a menina chorosa;  - Você estava com as mãos na janela? Sabe que colocar as mãos na janela pode machucar?

A velha senhora diz carinhosamente; - Venha aqui com a vovó, me deixe ver o seu dedinho. E a menina vai para o colo da senhora, sob o olhar atento do irmão que já não fala nada.

A “vovó” com toda atenção faz carinho nos dedos da criança e pergunta para o mais velho, se é ele que cuida das irmãs menores e o mesmo balança a cabeça afirmativamente. A partir daí inicia toda uma explicação de o que fazer com o dedinho da criança ao chegar em casa.

A menina já não chora e passa a sorrir. E a senhora devolve a criança para o irmão falando;  - Quando alguém está doido, sentindo dor, temos que dar carinho e amor, assim você contorna a situação. Entendeu?

Esta frase ficou em minha mente.

Todos nós descemos no mesmo ponto, mas cada um seguiu o seu caminho e as palavras ficaram comigo, vivas em minha mente.

Fiquei a pensar; “Será que Deus quis me proteger e ao me proteger feriu-me sem intenção, porque não tirei minhas mãos do perigo? Será que tão chorosa e doida na minha mágoa, não me permiti entender que Deus cuidava de mim?”

Bem, espero ao final sorrir como aquela criança e sentir que o carinho e o amor contornaram a situação de - não sou mais o que sou.


Lê Gomes


domingo, 16 de novembro de 2014

domingo, 2 de novembro de 2014

Rafael , uma coruja.

Uma homenagem ao meu irmão querido, que se foi aos 25 anos de idade cheio de vida e vontade de viver e que viveu intensamente todos os dias de sua vida.


Rafael , uma coruja 


Quando pequeno eu te via
tão inocente a me olhar.
No meu colo te ninava
você era meu brincar.

Meu irmão quanta saudade.
A infância queria voltar,
relembrar o tempo bom
de te ver a celebrar.

O tempo passa, a juventude chega.
Conflitos, rebeldia.
Seu caminho quis trilhar.
E suas irmãs sempre a lhe amar.

Jamais esquecerei
seu doce beijo na testa,
suas falas e sua filha a ninar.
Este foi para ti meu último olhar.

Não quero outras lembranças,
não quero seu rosto gélido no meu.
Quero meu irmão recordar,
com aquele sorriso no rosto como lua a brilhar.


Lê Gomes